O dia que durou 21 anos

Transcrição sobre o vídeo documentário “O dia que durou 21 anos” (fonte: YouTube.com – TV BRASIL – apresentação Renata Lessa – escrito pelo jornalista Flávio Tavares)

Repórter: Muitos americanos e brasileiros acreditam que os EUA tiveram papel na deposição do governo de Goulart. É possível para os EUA, com tanta influência na América Latina permanecer completamente neutro nesse tipo de situação?

Peter Kornbluh(Coordenador do National Security Archives – EUA): Foi revelado uma rica coleção de documentos confidenciais americanos que narram minuto à minuto a estratégia americana desde o início do golpe militar até 2 de abril, quamdo Goulart deixou o país. Praticamente um relatório minuto por minuto, hora por hora dos fatos que levaram ao golpe. O Brasil era uma super potência regional. Um país imenso, com vasto potencial econômico. Vasto potencial de liderança. Os EUA não podiam se dar ao luxo de o perder. Esse conceito dos estrategistas americanos de que eles são donos dos países da América Latina, e se esses países tomarem um caminho próprio, elegerem seus próprios representantes, nós os “perdemos”.

Carlos Fico(professor do Instituto de História UFRJ): Prá nós compreendermos, o embaixador norte-americano no Brasil naquela ocasião, era o embaixador Lincoln Gordon, um homem que se tornou um personagem da história politica brasileira. Ele era embaixador dos EUA mas, ele acabou se constituindo com um personagem da história politica brasileira, tamanha a importância que a embaixada passou a ter naquele momento tão conturbado do governo Goulart e do golpe de 64.

Peter Kornbluh(Coordenador do National Security Archives – EUA): Ele realmente foi um grande ator na arquitetura do golpe brasileiro.

James Green(Historiador Brown University – EUA): E ele foi enviado ao Brasil porque falava um pouco de português e tinha a missão de impedir que o governo brasileiro guinasse para a esquerda. Gordon chegou no governo Jânio Quadros e sua missão era bloquear todas as ações de João Goulart.

Casa Branca – Washington D.C.
Kennedy: Você acha que se Goulart tivesse poderes, se ele tivesse poderes, agiria?
Lincoln Gordon(Embaixador dos EUA no Brasil): Acho que ele faria algo como Perón, ou algo assim.
Kennedy: Um ditador?
Gordon: Um ditador pessoal e populista.
Kennedy: Acho que não posso fazer nada com ele ali.
Gordon: Acho que pode!

Peter Kornbluh: O objetivo deles era provar que Goulart era muito esquerdista. E a reforma agrária, pela qual Goulart lutou, era apenas mais munição para o argumento deles.

Plínio de Arruda Sampaio(Deputado Federal – 1964 – apoiou o presidente João Goulart): É muito curioso porque o país nos anos 60, é como que ele toma consciência, da necessidade de dar um passo. Um passo na direção da democracia, um passo na direção da nação. Uma das tensões sociais mais sérias foi no campo. Ligas camponesas no nordeste, no Rio Grande do Sul uma série de movimentos, essa massa rural começava a aparecer em forma de ocupação de terras, em forma de grandes marchas. Tinha um quadro muito forte de tensão e de disputa no campo.

Rio Grande do Sul – Sarandi – Janeiro de 1962
Brizola desapropia 20.000 ha de terras improdutivas e as distribuiu a 10.000 agricultores na região de Sarandi.

Presidente João Goulart – 1962
_ A reforma agrária feita em termos da reforma da nossa Constituição, indo de encontro aos anseios da nação, vai proporcionar mais do que qualquer providência. É essa tranquilidade da qual nós todos reclamamos. Que a reclamamos em benefício do desenvolvimento do nosso país.

Plínio Arruda: Eu acabei designado, relator do projeto da reforma agrária. A emenda era permitir que o governo pudesse desapropiar uma terra, pagá-la a prazo, e com isso ter recursos prá desencadear e fazer uma lei, ordinária de reforma agrária.

Carta de Lincoln Gordon(Embaixador dos EUA no Brasil): O governo de Goulart representa uam ameaça ao mundo livre. Minha conclusão é que as recentes ações de Goulart e Brizola para promover a reforma agrária levarão o Brasil a um governo comunista, como Fidel Castro fez em Cuba.

Peter Kornbluh: Gente como Lincoln Gordon usou reforma agrária como argumento para provar que Goulart era muito esquerdista.

Robert Bentley(Assiatente do embaixador Lincoln Gordon): Eles jogavam muito bem…

Carlos Fico: Muitas vezes os funcionários norte ameicanos diziam: _ Mas embaixador, será que é isso mesmo? Será que João Goulart de fato… Descrentes um pouco dessa leitura catastrófica de Lincoln Gordon. E ele foi o responsável por manter essa interpretação.

Embaixador Gordon e o governo americano dão boas vindas às mudanças. Esse é o Q.G. de 1200 americanos em serviço governamental no Brasil.(imagem da embaixada americana no centro do Rio de Janeiro). Seu trabalho é manter a nação mais importante da América Latina, firmemente comprometida com o Ocidente.

Robert Bentley: Eu cheguei aqui como o Assistente ao embaixador, eu tinha que diariamente preparar a informação do embaixador, eu controlava a informação que ele recebia. O Gordon era um acadêmico de Havard Administration e tinha feito a sua carreira escrevendo sobre o Brasil. Naquela época o Kennedy estava a escolher os melhores e os mais inteligentes para as posições, então foram pesquisar Gordon que era bastante jovem na época, e estava aqui como professor, quando foi indicado como embaixador.

O embaixador Lincoln Gordon convenceu o Departamento de Estado de que realmente João Goulart, ele ia implantar no Brasil uma República Sindicalista e que depois perderia o controle para os comunistas.

Carta de Lincoln Gordon(Embaixador dos EUA no Brasil): Goulart está começando um perigoso movimento de esquerda, estimulando o nacionalismo. Duas compahias americanas I.T.T do setor de telecomunicações e a Amforp do setor elétrico foram recentemente desapropiadas pelo governador Leonel Brizola. Tais ações representam uma ameaça aos interesses dos EUA.

Kennedy já havia decidido que não podia trabalhar com Goulart, que ele era muito esquerdista, muito a favor de Cuba, muito orgulhoso e que, basicamente, ele tinha que ir embora. Então foi durante a gestão de Kennedy, e não durante a de Johnson, que a CIA começou a expandir suas ações em São Paulo e em outras partes do país. A CIA desenvolvia suas atividades clandestinas por todo o Brasil. A CIA criou o que chamamos de “condições para o golpe”, como se fosse algo que o clima traria.

Plínio de Arruda: problema grave não foi o único, nós tínhamos um problema pendente com as concessões estrangeiras que estavam se vencendo. E que todas elas tinham problemas seríssimos de execução, e não tinham cumprido rigorosamente as concessões, obrigando por exemplo, a desapropiá-las sem pagamento. Porque na verdade, elas deviam ao Estado brasileiro, e não o Estado brasileiro a elas.

Discurso do presidente João Goulart(Sede da ONU – 1962): A necessidade que nós sentimos de colocar em pauta a desapropiação das compahias dentro de formas de entendimento, foi exatamente pela dificuldade que elas estavam desempenhando no momento pro meu país. Poderíamos estimular o investimento de capital estrangeiro, se dermos a esse mesmo capital uma compensação justa. Quando eu falo justa é exatamente para expressar o pensamento do país de justiça. Ela não pode ser também, não pode obter lucros excessivos, lucros que a enriqueça muito depressa em detrimento do interesse Nacional. Ou à custa do emprobecimento do país.

Eric Sevareid (Repórter da CBS News): Quando o comunismo se instalou em Cuba, nos perguntamos: por que? Por que aconteceu? Poderíamos ter evitado?
(mostram Fidel falando ao povo) e comentam: Os EUA tomaram conhecimento de Cuba, quando um barbudo tomou o poder há 3 anos. Descobrimos o Brasil quando um homem de bigode renunciou, 2 meses atrás. Cuba se foi. Para onde o Brasil for irá toda a América do Sul.
(mostram Bocayuva Cunha(Líder do Governo João Goulart), falando em inglês: Se as tropas americanas forem enviadas contra Fidel Castro… Vocês terão o Brasil inteiro, não estou exagerando apoiando Fidel. Nós queremos que a política externa do Brasil seja brasileira e queremos colocar os interesses do Brasil acima de tudo.
E a CBS News continua: É hora de agir porque o Brasil está se agitando e ameaça explodir.

Carlso Fico: Os EUA não admitiriam em nenhuma hipótese uma outra Cuba, vamos dizer assim. Um outro governo na América Latina de viés socialista, comunista, ou o que fosse. Não admitiriam em hipótese alguma mesmo que tivesse que perpetrar quaisquer violências.

Kennedy na Casa Branca – Washington D.C. : Naquela ilha infeliz, as notícias têm sido ruim ao invés de boas. Está claro que as forças do comunismo não devem ser substimadas, em Cuba ou qualquer lugar do mundo. Uma nação do tamanho de Cuba, não é uma ameaça à nossa sobrevivência do que uma base que ameaça a sobrevivência de outras nações livres do hemisfério. Estou convencido de que nós, neste país e no mundo livre temos os recursos e habilidades, e a força que vêm de uma crença na liberdade do homem. Vou deixar bem claro que, como presidente dos EUA estou determinado a garantir a sobrevivência do nosso sistema e o nosso sucesso, quaisquer que sejam os custos e quaisquer que sejam os desafios.

Carta de Lincoln Gordon(Embaixador dos EUA no Brasil): O Brasil não pode seguir o caminho vermelho, se falharmos agora não teremos uma nova Cuba mas sim uma nova China em nosso Continente Americano. Creio ser esse o momento oportuno para fazer um convite oficial a Goulart. Na pauta, sugiro uma visita a nossa base aérea de Offut em Nebraska.

Quanto mais Goulart se recusava a ceder as pressões americanas e quanto mais adotava posições independentes sobre Cuba e a crise dos mísseis, mais os oficiais americanos concluiam que Goulart deveria ser deposto.

Presidente João Goulart – 1962
O princípio que rege acima de todos, a nossa convivência, e que torna possível a nossa unidade são o princípio da não intervenção.

A questão não era Goulart ser comunista, mas sim se ele era hostil e agressivo com a esquerda brasileira que preocupava os agentes americanos.

Kennedy: O perigo de nosso tempo é que todas as nações e os homens livres estão ameaçadas pelo avanço comunista.

O governo Kennedy achava que o Brasil seria a segunda Revolução Cubana.

Kennedy: Vamos transformar o continente americano num vasto campo de ideais e esforços revolucionários. Nossa Aliança para o progresso é uma aliança de governos livres. “Aliança para o Progresso”. Um exemplo para todo o mundo que a liberdade e o progresso andam de mãos dadas.

A aliança foi uma tentativa de combater a influência da Revolução Cubana na América Latina, de oferecer reforma para prevenir que os camponeses e estudantes optassem pela revolução cubana.

Prpaganda Política Americana: Uma parte importante de nossa ajuda externa se dirige à America Latina, em uma ousada investida chamada: “Aliança para o Progresso”.

Robert Bentley: Aliança para o Progresso era um programa com muito idealismo para dar um enfoque americano sobre a américa latina em geral. De uma forma que nunca havia sido feito antes, o orçamento dos EUA para o Brasil era U$ 2,000,000. Um gasto incontrolável de dinheiro, era educação, era agricultura, era infraestrutura, era finanças, era em todos os setores ali esta a Aliança para o Progresso. Havia ao mesmo tempo grande preocupação, governos importantes como o governo do Brasil não podia seguir uma linha hostil aos Estados Unidos.

Continua…

1 ideia sobre “O dia que durou 21 anos

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